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Maria-louca

Knownlyx encyclopedia image Nota: Se procura pela rainha de Portugal e do Brasil, veja Maria I de Portugal.
Maria-louca
TipoAguardente
OrigemKnownlyx archive image Brasil (sistema prisional)
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O Wikilivro Livro de receitas tem uma página intitulada Aguardente Maria-Louca

Maria-louca é uma aguardente produzida clandestinamente no sistema prisional do Brasil. A bebida ganhou notoriedade a partir da publicação do livro Estação Carandiru (1999), do médico Drauzio Varella, que documentou o cotidiano da Casa de Detenção de São Paulo.[1] Sua fabricação envolve processos artesanais de fermentação e destilação realizados secretamente pelos detentos.[2][3]

História

A "maria-louca" foi mencionada pela primeira vez na literatura brasileira no livro Estação Carandiru, onde Drauzio Varella descreveu a bebida como parte da cultura carcerária do presídio paulista.[4] A produção da aguardente é documentada em diversos presídios brasileiros há décadas, sendo considerada parte integrante da economia informal das unidades prisionais.[5]

Em 2025, a maria-louca ganhou destaque na série Tremembé, produzida pela Prime Video, que retratou o cotidiano da Penitenciária de Tremembé e mostrou detalhes da fabricação da bebida.[6] A repercussão da série ampliou o interesse público sobre a bebida e suas implicações no sistema prisional.

Produção

A fabricação da maria-louca utiliza ingredientes simples disponíveis nas unidades prisionais. Segundo depoimentos de ex-detentos, a receita básica inclui cascas de frutas (principalmente laranja e limão), açúcar, água e fermento biológico.[5][6] O processo completo leva aproximadamente 15 dias, dividido entre fermentação e destilação.[7]

A fermentação ocorre em recipientes improvisados, geralmente garrafas PET de refrigerante. As cascas de frutas são misturadas com açúcar, água e fermento, permanecendo em repouso por cerca de sete dias até atingir o ponto de fermentação adequado.[5] O ex-detento Maurício Monteiro relatou que "a mistura fica borbulhando, e quando para de borbulhar está pronta para destilar".[5]

O processo de destilação utiliza equipamentos totalmente artesanais. Segundo o ex-detento Edilberto Soares, "usamos panelas velhas, mangueiras de soro e garrafas para fazer uma serpentina caseira".[8] A serpentina improvisada permite condensar os vapores alcoólicos, separando a aguardente do mosto fermentado. Existem vídeos documentando o método completo de fabricação.[9]

Há variações regionais na receita. Em alguns presídios de Minas Gerais, são adicionadas folhas de eucalipto durante a destilação, o que confere à bebida um sabor descrito por detentos como semelhante ao do licor Cointreau.[10] Os produtores mais experientes testam a pureza da bebida acendendo fogo em uma pequena quantidade: se a chama for azul, indica alta concentração alcoólica e ausência de impurezas grosseiras.[5]

Comercialização e valor

No sistema prisional, a maria-louca funciona como moeda de troca na economia informal carcerária. A bebida é comercializada em pequenas quantidades, geralmente garrafas de 500ml ou 1 litro, sendo negociada por "parangas" (cigarros) ou outros produtos de valor dentro das unidades.[8] O ex-detento Marcos Rocha revelou que "uma garrafa de maria-louca vale de 10 a 20 parangas, dependendo da qualidade e da época".[5]

O fermento biológico, ingrediente essencial para a produção, é contrabandeado para dentro dos presídios e possui valor comercial elevado. Segundo relatos, um tablete de fermento pode valer mais que a própria bebida pronta, sendo considerado "ouro" na economia carcerária.[7] A produção e comercialização da maria-louca envolvem hierarquias entre os detentos, com produtores experientes comandando esquemas de fabricação em troca de proteção ou pagamentos.[6]

Fiscalização

A produção de maria-louca é considerada falta disciplinar grave no sistema prisional brasileiro. As administrações penitenciárias realizam apreensões periódicas de equipamentos e da própria bebida durante revistas nas celas. Em 2025, a Secretaria da Administração Penitenciária de São Paulo (SAP-SP) informou ter apreendido aproximadamente 244 litros de maria-louca em suas unidades até janeiro.[11]

Apesar das punições, a produção persiste devido à dificuldade de controle total sobre os materiais utilizados, que são itens de uso cotidiano. A própria estrutura de superlotação e a limitação de recursos para fiscalização contribuem para a continuidade da fabricação clandestina.[8] Embora a produção de aguardente caseira em pequena escala seja geralmente tolerada no Brasil quando feita em ambiente doméstico para consumo próprio, a maria-louca é específica do contexto prisional, onde sua fabricação constitui infração disciplinar e ocorre em condições insalubres.

Repercussão cultural

A maria-louca tornou-se símbolo da cultura carcerária brasileira, sendo retratada em diversas obras. Além do livro Estação Carandiru, a bebida foi tema do documentário Vixi, Maria! (2010), produzido pela revista Vice, que mostrou detalhes do processo de fabricação e entrevistou produtores em presídios brasileiros.[2] A série Tremembé (2025), da Prime Video, dedicou cenas à produção da maria-louca, contribuindo para ampliar o conhecimento do público sobre a bebida.[6]

Estudos acadêmicos sobre o sistema prisional brasileiro também mencionam a maria-louca como elemento das táticas de sobrevivência e sociabilidade dos detentos. A Revista Veredas publicou artigo analisando o papel da bebida na construção de relações sociais dentro da Casa de Detenção de São Paulo.[12]

A maria-louca é exclusiva do contexto prisional brasileiro, não havendo produção comercial ou artesanal da bebida fora das unidades carcerárias.

Referências

  1. Varella, Drauzio (1999). Estação Carandiru. [São Paulo, Brazil]: Companhia das Letras. 368 páginas. ISBN 8571648972. OCLC 42586670 
  2. a b Wainer, João; Maleronka, André; Brasil, Equipe VICE (5 de outubro de 2010). «Vixi, Maria!». Vice. Consultado em 15 de maio de 2019 
  3. «Oficina do inferno». Superinteressante. Consultado em 27 de dezembro de 2018 
  4. Varella, Drauzio (1999). Estação Carandiru. [São Paulo, Brazil]: Companhia das Letras. 368 páginas. ISBN 8571648972. OCLC 42586670 
  5. a b c d e f «Maria-louca: a bebida das prisões brasileiras». Terra. 20 de julho de 2012. Consultado em 17 de janeiro de 2025 
  6. a b c d «Maria-louca: bebida clandestina produzida nos presídios brasileiros». Conecta Piauí. 15 de janeiro de 2025. Consultado em 17 de janeiro de 2025 
  7. a b «Maria Louca: conheça a bebida produzida em presídios brasileiros». BNews. 14 de janeiro de 2025. Consultado em 17 de janeiro de 2025 
  8. a b c «Maria-louca: bebida clandestina feita em presídios ganha destaque». Metrópoles. 15 de janeiro de 2025. Consultado em 17 de janeiro de 2025 
  9. Macho Alpha, Agronopolos (21 de abril de 2016). «Destilando Maria Louca». The New Desativado Por Pouco Uso (TNDPPU). Consultado em 27 de dezembro de 2018 
  10. «Maria-louca: a cachaça dos presídios mineiros». Estado de Minas. 14 de janeiro de 2025. Consultado em 17 de janeiro de 2025 
  11. «SAP apreende 244 litros de maria-louca em presídios paulistas». Secretaria da Administração Penitenciária. 13 de janeiro de 2025. Consultado em 17 de janeiro de 2025 
  12. «Táticas de sobrevivência em Estação Carandiru». Revista Veredas. 20 (2). 2016. Consultado em 17 de janeiro de 2025 

Ligações externas

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